Meus pais sempre me disseram como é bom "deitar a cabeça no travesseiro e saber que o dinheiro vai chegar na conta". A tal da estabilidade financeira. Nascidos em meio a ditadura e pertencentes a "geração perdida" de 80, eles passaram pela hiperinflação, pelo Plano Real e a nova "prosperidade" pós governo Lula.
Não os culpo, o mundo era um caos mesmo. E o pior, está voltando a ser um caos.
Eu sinto ares de mudança. Vejo uma Europa quebrada, insatisfação civil em todas as nações, a internet e a tecnologia mudando cada vez mais as nossas vidas. É inacreditável lembrar de como era um celular quando eu tinha 5 anos, em 2000.
Tudo que eu achava certo, tudo que meus pais ensinaram pesa a minha consciência. Mas por quê? Porque eu quero outra coisa.
Meu coração bate mais forte, um desejo me domina quando vejo relatos de pessoas que vão atrás do que amam, que não querem grandes cifras no banco e um carrão, mas vivem com conforto. Eu nunca fui materialista, nem sonhei em ser riquíssima, mas parece que isso é errado.
Meus pais, parentes e amigos lutam dia após dia pela estabilidade financeira, o celular mais moderno, o aplicativo novo, o carro com aquilo,a TV com isso, coisas,coisas,coisas... Dinheiro.
Todo tempo me fazem pensar que preciso de dinheiro, certo, garantido, chegando todo mês na minha conta. Sem surpresas.
Eu quero ser artista, e isso não dá dinheiro.Quero fazer História, mas também não dá. Queria fazer psicologia, e diziam que eu ia ser pobre. Tudo que não tenha Matemática,Química,Física ou Biologia não dá dinheiro. Me pergunto então como todas as outras pessoas vivem, como pagam as contas,saem,viajam, se divertem. Somos todos uns miseráveis?
Tudo custa caro: Uma caneta com design diferente custa quase 5 reais, esse era o preço que minah mãe pagava por um McLanche Feliz. Completo.
Roupas com preços altos e qualidade mediana, restaurantes caros com um serviço a desejar e sabor insosso, filmes que mostram mais do mesmo, transporte lento e ineficiente, violência. Tudo parece conspirar para que fiquemos em casa comprando coisas e trabalhando para ganhar mais e mais. Eu vejo o preço das coisas, o tempo todo, e eles me dizem o tempo inteiro para desistir dessa ideia absurda de seguir Humanas e garantir um emprego público como Farmacêutica como todos os meus colegas de técnico querem. A cada aula eu morro um pouco, sinto-me violada, abusada intelectualmente, espancada, surrada. Saio da escola como quem sai de uma guerra, tentando encontrar motivos para resistir só mais um dia.
Decoro fórmulas que nunca mais vou usar, aprendo leis e nomes de enzimas e organelas e funções, coisas que ocupam espaço e tempo.
"Só mais um dia,mais um dia e estará tudo terminado..."
A vida não é tão difícil assim,eu sei que não. Esse fardo contínuo não pode ser o propósito de estarmos aqui.
Eu quero pegar o facão e cortar a mata, abrir o meu caminho, seguir as pegadas de alguns e olhar mais longe. Eu não quero uma vida comum, mas eu quero estabilidade.
Eles pensam que eu não sei, meus pais. Eu sei que não era isso que vocês queriam pra mim: uma artista,uma professora de História, uma louca, hippie,feminista. No fundo,vocês me apoiam porque me amam e querem que eu seja feliz, mas esperam o primeiro deslize para me colocar no colo e repetir todos os seus ensinamentos sobre vida estável,emprego público e casa própria.Vocês são meu porto,meu lar, mas um dia desaparecerão.
Eu preciso acreditar no meu caminho,nos meus planos;usar as minhas habilidades no que eu amo, sentir que o esforço vale a pena. Nesse ano de 2014 eu vou aguentar muita coisa que eu detesto, só para conseguir o que eu quero.
Em 2015 faço 20 anos e digo chega, nada de técnico, de exatas, de gente me dizendo que estou perdendo uma grande oportunidade. Eu vou fazer as minhas oportunidades.
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